A maldição do livro velho

Um senhora queria lhe entregar um velho livro, mas ela recusou. De nada adiantou, pois o livro foi até ela e mudou sua vida para sempre...

Dizem que os mortos nunca voltam. Por mais que acreditemos, tudo isso não passa de um íntimo desejo de continuar a viver mesmo depois de morto, pois não nos conformamos com a morte.

Não era nisso que Helena acreditava. Gostava muito de assuntos relacionados ao sobrenatural e sempre buscava meios de entender o que acontece quando morremos.

Um dia quando estava saindo do colégio, fazia muito frio e uma intensa neblina cobria as ruas. Helena caminhava num ritmo devagar, para aproveitar o tempo, pois adorava o frio.

O silêncio tomava conta da rua quando foi interrompido por passos. Era uma senhora muito enrugada e com uma aparência nada saudável. Tinha um livro grosso e velho nas mãos e de repente chamou-a pelo nome. Helena mesmo assustada com essa situação sobre o fato da velhinha saber o seu nome, resolve parar e ver o que a senhora quer, pois pensou “o que uma velhinha poderia fazer de mal?”

A velhinha se aproximou e lhe ofereceu o livro grosso e velho a moça, afirmando que o tal livro deveria ser oferecido a ela mas não poderia ser rejeitado, pois, a pessoa destinada ao livro sofreria sérias consequências. Helena debochou da senhora enrugada, dizendo que estava caduca. E mesmo com muita insistência da velhinha, Helena não aceitou, virou-se e foi embora carregando as últimas palavras ditas pela senhora “seu último desejo será seu martírio por toda a eternidade”.

Helena chega em casa agindo normalmente, nem se importou com abordagem recebida a pouco. Almoça e vai dormir em seu quarto. Quando acorda olha no relógio, são três da tarde.

Repentinamente toma um susto! O livro qual a velhinha oferecera estava na cabeceira de sua cama!
Apesar da indignação, Helena pega os livros nas mãos, era um livro marrom, sem nome. Então resolve abrir.

Logo na primeira página havia algo escrito a mão em uma língua que Helena não conseguiu identificar “ez a könyv az esélye, ha a tulajdonos a könyv tagadja meg az utolsó kívánsága az lesz a legnagyobb rémálom.” Folheou o livro tentando obter alguma informação sobre o livro mas também estava escrito nessa língua estranha.

No dia seguinte, Helena se vestiu para ir à escola, pegou sua mochila mas tomou outro rumo, queria tirar essa história a limpo e foi até a casa de uma mulher que morava no bairro ao lado que era conhecida por mexer com ocultismo.

Chegando lá, bateu palmas algumas vezes. Era uma casa mal cuidada, cheia de gatos, a mulher tinha unhas muito compridas, cabelos oleosos, cega de um olho e usava roupas medonhas, e tinha um cheiro forte de cigarro. Se não fosse pela curiosidade, Helena jamais pisaria naquele lugar.

Convidou-a para sentar e Helena logo lhe contou sobre o livro e sobre a velha senhora. A mulher quis ver o livro e Helena o mostrou. A mulher ficou pasma, logo reconheceu do que se tratava. Era magia negra da pesada!

Helena quis saber exatamente do que se tratava e que língua estava escrito. E a mulher lhe contou tudo.

No século VX na Hungria, havia uma condessa chamada Elizabeth Bathory, uma mulher de pura maldade que torturava suas escravas e banhava-se com o sangue delas a fim de manter-se jovem. Reza a lenda que este livro foi um presente de sua tia lésbica que praticava as artes da magia negra. “ez a könyv az esélye, ha a tulajdonos a könyv tagadja meg az utolsó kívánsága az lesz a legnagyobb rémálom” quer dizer que este livro deve ser recebido de bom grado, caso negado, o último desejo que a pessoa fez, será seu martírio por toda a eternidade. Este livro é cheio de maldições, as pessoas que utilizaram este livro fizeram coisas terríveis, só tocar ou possuir pode trazer alguma consequência.

O motivo pelo qual ele foi parar em suas mãos pode estar relacionado com algum caso de maldição que caiu sobre sua família.

Helena voltou para casa inconformada, pois conseguiu as informações mas a mulher nada podia fazer para ajuda-la. Era um tipo de magia desconhecida, muito antiga, não havia como desfazer. Lembrou-se do passado da rivalidade sobre o lado religioso e o lado obscuro de sua família. Teve uma tia que participava de missas negras, que morreu em um incêndio. O que deixou Helena um tanto aflita foi o fato de ter sofrido muito com a morte da tia, que mesmo Helena sabendo o quão grotesco era o seu comportamento aos olhos da sociedade, gostava muito de sua tia, e dois dias de sua tia morrer, Helena e Márcia haviam combinado que quem morresse primeiro, voltaria para contar como é o mundo dos mortos.

Naquela noite, Helena não pregava os olhos, parecia que todas as posições em que se deitava não eram confortáveis.

Eram três da madrugada, um cheiro de perfume infestou seu quarto. Era o perfume de sua tia Márcia, impossível não reconhecer, muito cheiroso.

Helena resolve sentar na cama, e de repente vê sua tia Márcia ao pé da cama, com uma roupa branquíssima, transmitia muita paz. “venha minha querida, vou lhe mostrar o mundo dos mortos.”

Helena sentiu um pouco amedrontada, mas feliz de poder ver sua tia outra vez, e ver que estava bem, mas estranhou sua serenidade “me dê a mão minha querida.”

Tomada pela euforia de poder saber o que há quando morremos, Helena deu as mãos a sua querida tia, quando de repente tudo mudou...

Tia Márcia apertava forte a mão da sobrinha, que a deixou incomodada, e a olhou nos olhos com um olhar perturbador e foi mudando sua fisionomia e revelando uma aparência horrenda de um demônio. O cheiro de perfume foi substituído pelo cheiro de putrefação.

Helena tentava soltar a mão, mas o demônio era muito forte, queria leva-la de qualquer maneira, falava com uma voz assustadora e com um sorriso cínico, “vamos querida, vou mostrar-lhe sua morada.”

De repente Helena estava em uma espécie de vórtice, movia-se muito rápido, queria vomitar...

Acorda em sua cama, tudo está normal, será que Helena estava apenas sonhando? Ficou um tempo na cama, pensando nos acontecimentos. Se sentia aliviada por ser apenas um sonho. Resolve levantar-se para tomar um copo d’água, quando abre a porta uma surpresa a espera...

Era um labirinto, o lugar era bonito, mas lhe causava medo e angústia. Parecia que seu pesadelo ou encontro com o demônio havia sido a um ano atrás... Não tinha mais noção de tempo, noção de nada. Não sentia fome, não sentia sede, a única coisa que sentia era pavor.

Andou por um tempo pelo labirinto, estava confusa, quase perdendo sua sanidade.

Percebeu que estava sendo acompanhada, quando se vira, era a velhinha.

Helena sentia tonta, como se estivesse dopada, como se estivesse enlouquecendo pouco a pouco, sentia-se atormentada, uma sensação terrível, de repente, quase sem forças, cai ao chão e lá permanece, olhando para o nada.

A velha senhora friamente lhe disse “esse é o seu destino por toda a eternidade, os mortos não retornam jamais.

Durante toda a sua vida inútil, você buscou algo além do seu alcance. Nunca fez algo de bom, nada que merecesse algum mérito, passava a maior parte do tempo atrás de uma vadia estúpida que teve uma morte merecida, e você lamentou como se ela fosse um anjo. Se tivesse sido mais esperta não estaria aqui, se não tivesse rejeitado o meu livro não estaria  nesse lugar onde só os imundos permanecem. Seu destino será esse, passará o resto da eternidade vagando por este labirinto, tentando buscar algum sentido a sua alma oca.”

O Coração Delator - Edgar Allan Poe


É verdade! Tenho sido e sou nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso! Mas, por que ireis dizer que sou louco? A enfermidade me aguçou os sentidos, não os destruiu, não os entorpeceu. Era penetrante, acima de tudo, o sentido da audição. Eu ouvia todas as coisas, no céu e na terra. Muitas coisas do inferno ouvia. Como, então, sou louco?

Prestai atenção! E observai quão lucidamente, quão calmamente vos posso contar toda a estória.

É impossível dizer como a ideia me penetrou primeiro no cérebro. Uma vez concebida, porém, ela me perseguiu dia e noite. Não havia motivo. Não havia cólera. Eu gostava do velho. Ele nunca me fizera mal. Nunca me insultara. Eu não desejava seu ouro. Penso que era o olhar dele! Sim, era isso! Um de seus olhos se parecia com o de um abutre. . . um olho de cor azul-pálido, que sofria de catarata. Meu sangue se enregelava sempre que ele caía sobre assim, e assim, pouco a pouco, bem lentamente, fui-me decidindo a tirar a vida do velho e assim libertar-me daquele olho para sempre.

Ora, aí é que está o problema. Imaginais que sou louco.

Os loucos nada sabem. Deveríeis, porém, ter-me visto. Deveria ter visto como procedi cautamente! Com que prudência...com que previsão. . . com que dissimulação lancei mãos à obra!

Eu nunca fora mais bondoso para com o velho do que durante a semana inteira antes de matá-lo. E todas as noites, por meia-noite, eu girava o trinco da porta de seu quarto e abria-a…oh, bem devagarinho. E depois, quando a abertura era suficiente para conter minha cabeça, eu introduzia uma lanterna com tampa toda velada, bem velada, de modo que nenhuma luz se projetasse para fora, e em seguida enfiava a cabeça. Oh, teríeis rido ao ver como a enfiava habilmente!

Movia-a lentamente. . . muito… muito lentamente, a fim de não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para colocar a cabeça inteira além da abertura, até podê-lo ver deitado na cama. Ah! Um louco seria precavido assim? E depois quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a tampa da lanterna cautelosamente. . - oh, bem cautelosamente! Sim, cautelosamente (porque a dobradiça rangia) . . . abria-a só até permitir que apenas um débil raio de luz caísse sobre o olho de abutre. E isto eu fiz durante sete longas noites. . . sempre precisamente a meia-noite. . . e sempre encontrei o olho fechado. Assim, era impossível fazer a minha tarefa, porque não era o velho que me perturbava, mas seu olho diabólico. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu penetrava atrevidamente no quarto e falava-lhe sem temor, chamando-o pelo nome com ternura e perguntando como havia passado a noite. Por aí vedes que ele precisaria ser um velho muito perspicaz para suspeitar que todas as noites, justamente as doze horas, eu o espreitava, enquanto dormia.

Na oitava noite, fui mais cauteloso do que de hábito ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos de um relógio mover-se-ia mais rapidamente do que meus dedos. Jamais, antes daquela noite, sentira eu tanto a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que ali estava eu, a abrir a porta, pouco a pouco, e que ele nem sequer sonhava com os meus atos ou pensamentos secretos…Ri entre os dentes, a essa idéia, e talvez ele me tivesse ouvido, porque se moveu de súbito na cama, como se assustado. Pensais talvez que recuei? Não!

O quarto dele estava escuro como piche, espesso de sombra, pois os postigos se achavam hermeticamente fechados, por medo aos ladrões. E eu sabia, assim, que ele não podia ver a abertura da porta; continuei a avançar, cada vez mais, cada vez mais. Já estava com a cabeça dentro do quarto e a ponto de abrir a lanterna, quando meu polegar deslizou sobre o fecho de lata e o velho saltou na cama, gritando: Quem está aí?

Fiquei completamente silencioso e nada disse. Durante uma hora inteira, não movi um músculo e, por todo esse tempo, não o ouvi deitar-se de novo. Ele ainda estava sentado na cama, à escuta; justamente como eu fizera, noite após noite, ouvindo a ronda da morte próxima.

Depois ouvi um leve gemido e notei que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de pesar.. . oh, não! Era o som grave e sufocado que se ergue do fundo da alma quando sobrecarregada de medo. Bem conhecia esse som. Muitas noites, ao soar meia noite, quando o mundo inteiro dormia, ele irrompia de meu próprio peito, aguçando, com seu eco espantoso, os terrores que me aturdiam. Disse que bem o conhecia. Conheci também o que o velho sentia e tive pena dele, embora abafasse um riso no coração. Eu sabia que ele ficara acordado desde o primeiro leve rumor, quando se voltara na cama.

Daí por diante, seus temores foram crescendo. Tentara imaginá-los sem motivo, mas não fora possível. Dissera si mesmo: "É só o vento na chaminé…ou é só um rato andando pelo chão", ou "foi apenas um grilo que cantou; um instante só. Sim ele estivera tentando animar-se com estas suposições, mas tudo fora em vão. Tudo em vão, porque a Morte, ao aproximar-se dele, projetara sua sombra negra para a frente, envolvendo nela a vítima. E era a influência tétrica dessa sombra não percebida que o levava a sentir - embora não visse nem ouvisse -, a sentir a presença de minha cabeça dentro do quarto.

Depois de esperar longo tempo, com muita paciência, sem ouvi-lo deitar-se, resolvi abrir um pouco, muito, muito pouco, a tampa da lanterna. Abri-a - podeis imaginar quão furtivamente - até, que por fim, um raio de luz apenas, tênue como o fio de uma teia de aranha, passou pela fenda e caiu sobre o olho de abutre.

Ele estava aberto. . . todo, plenamente aberto. . . e, ao contemplá-lo a minha fúria cresceu. Vi-o, com perfeita clareza, todo de um azul-desbotado, com uma horrível película a cobri-lo, o que me enregelava até a medula dos ossos. Mas não podia ver nada mais da face ou do corpo do velho, pois dirigira a luz, como por instinto, sobre o maldito lugar.

Ora, não vos disse que apenas é super acuidade dos sentidos aquilo que erradamente julgais loucura? Repito, pois, que chegou a meus ouvidos um som baixo, monótono, rápido como o de um relógio quando abafado em algodão. Igualmente eu bem sabia que som era. Era o bater do coração do velho. Ele me aumentava a fúria como o bater de um tambor estimula a coragem do soldado.

Ainda aí, porém, refreei-me e fiquei quieto. Tentei manter tão fixamente quanto pude a réstia de luz sobre o olho do velho. Entretanto, o infernal tã-tã do coração aumentava. A cada instante ficava mais alto, mais rápido, mais alto, mais rápido! O terror do velho deve ter sido extremo! Cada vez mais alto, repito a cada momento!

Prestais-me bem atenção? Disse-vos que sou nervoso, sou. E então, àquela hora morta da noite, o bater tão estranho excitou em mim um terror incontrolável. Contudo, por alguns minutos mais, dominei-me e fiquei quieto. Mas o bater era cada vez mais alto. Julguei que o coração ia rebentar. E, depois, nova angustia me aferrou: o rumor poderia ser ouvido por um vizinho! A hora do velho tinha chegado! Com um alto berro, escancarei a lanterna e pulei para dentro do quarto.

Ele guinchou mais uma vez.. uma vez só. Num instante, arrastei-o para o soalho e virei a pesada cama sobre ele. Então sorri alegremente por ver a façanha realizada. Mas, durante muitos minutos, o coração continuou a bater, com som surdo. Isto, porém, não me vexava. Não seria ouvido através da parede. Afinal cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, era uma pedra, morto como uma pedra. Coloquei minha mão sobre o coração e ali a mantive durante muitos minutos. Não havia pulsação. Estava petrificado. Seu olhos não mais me perturbariam.

Se ainda pensais que sou louco, não mais o pensareis, quando eu descrever as sábias precauções que tomei para ocultar o cadáver. A noite avançava e eu trabalhava apressadamente, porém em silêncio. Em primeiro lugar, esquartejei o corpo. Cortei-lhe a cabeça, os braços e as pernas. Arranquei depois três pranchas do soalho do quarto e coloquei tudo entre os vãos. Depois recoloquei as tábuas, com tamanha habilidade e perfeição que nenhum olhar humano - nem mesmo o dele - poderia distinguir qualquer coisa suspeita. Nada havia a lavar…nem mancha de espécie alguma. . nem marca de sangue. Fora demasiado prudente no evitá-las. Uma tina tinha recolhido tudo… ah, ah, ah!

Terminadas todas essas tarefas, eram já quatro horas. Mas ainda estava escuro como se fosse meia-noite. Quando o sino soou a hora, bateram à porta da rua. Desci a abri-la, de coração ligeiro, pois que tinha eu agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita mansidão, como soldados de polícia.

Fora ouvido um grito por um vizinho, durante a noite. Despertara-se a suspeita de um crime. Tinha-se formulado uma denúncia à polícia e eles, soldados, tinham sido mandados para investigar.

Sorri, pois. . . que tinha eu a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, disse eu, fora meu mesmo, em sonhos. O velho, relatei, estava ausente, no interior. Levei meus visitantes a percorrer toda a casa. Pedi-lhes que dessem busca completa. Conduzi-os, afinal, ao quarto dele.

Mostrei-lhes suas riquezas, em segurança, intactas. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto e mostrei desejos de que eles ficassem ali, para descansar de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na desenfreada audácia de meu perfeito triunfo, colocava minha própria cadeira propriamente sobre o lugar onde repousava o cadáver da vítima.

Os soldados ficaram satisfeitos. Minhas maneiras os haviam vencido. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia cordialmente, conversaram coisas familiares. Mas dentro em pouco, senti que ia empalidecendo e desejei que eles se retirassem. Minha cabeça doía e parecia-me ouvir zumbido nos  ouvidos; eles, porém, continuavam sentados e continuavam a conversar. O zumbido tornou-se mais distinto; continuou e tornou-se ainda mais perceptível.

Eu falava com mais desenfreio, para dominar a sensação; ela, porém, continuava e aumentava sua perceptibilidade. . . até que, afinal, descobri que o barulho não era dentro dos meus ouvidos.

É claro que então a minha palidez aumentou. Mas eu falava ainda mais fluentemente e num tom de voz muito elevada. Não obstante, o som se avolumava... E que podia eu fazer era um som grave, monótono, rápido... muito semelhante ao de um relógio envolto em algodão. Respirava com dificuldade... e no entanto, os soldados não o ouviram. Falei mais depressa ainda, com mais veemência. Mas o som aumentava constantemente. Levantei-me e fiz perguntas a respeito de ninharias, num tom bastante elevado e com violenta gesticulação, mas o som constantemente aumentava. Por que não se iam eles embora?

Andava pelo quarto acima e abaixo, com largas e pesadas passadas, como se excitado até a fúria pela vigilância dos homens; mas o som aumentava constantemente. Oh, Deus! Que poderia eu fazer? Espumei. . . enraivecido.. . praguejei! Fiz girar a cadeira sobre a qual estivera sentado e arrastei-a sobre as tábuas, mas o barulho se elevava acima de tudo e continuamente aumentava. Tornou-se mais alto. . . mais alto… mais alto! E os homens continuavam ainda a passear, satisfeitos e sorriam. Seria possível que eles não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! Não, não! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Estavam zombando do meu horror! Isto pensava eu e ainda penso. Outra coisa qualquer, porém, era melhor que aquela agonia!

Qualquer coisa era mais tolerável que aquela irrisão! Não podia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Sentia que devia gritar ou morrer, e agora de novo... escutai... mais alto... mais alto... mais alto…mais alto!…

- Vilões! - trovejei. - Não finjam mais! Confesso o crime! Arranquem as pranchas! Aqui, aqui! Ouçam o batido do seu horrendo coração! 



Leitura do texto



Berenice - Edgar Allan Poe


Dicebant mihi sodalez, si sepulchrum amicae visifarem, curas meas aliquantulum fore levatas. (meus companheiros me asseguravam que visitado o túmulo de minha amiga conseguiria, em parte, alívio para as minhas tristezas. N.T.)

Ebn ZAIAT

 A DESGRAÇA É VARIADA. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, nitidamente misturadas . Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança de paz, uma semelhança de tristeza? E que, assim como na ética o mal é uma conseqüência do bem, da mesma realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as amarguras que existem agora têm sua origem nas alegrias que podiam ter existido.

Meu nome de batismo é Egeu. O de minha família não revelarei. Contudo não há torres no país mais vetustas do que as salas cinzentas e melancólicas do solar de meus avós. Nossa estirpe tem sido chamada de uma raça de visionários. Em muitos pormenores notáveis, do caráter da mansão familiar, nas pinturas do salão principal, nas tapeçarias dos dormitórios, nas cinzeladuras de algumas colunas de armas, porém, mais especialmente, na galeria de quadros no estilo da biblioteca e, por fim, na natureza muito peculiar dos livros que ela continha, há mais que suficiente prova a justificar aquela denominação.

Recordações de meus primeiros anos estão intimamente ligados àquela sala e aos seus volumes, dos quais nada mais direi. Ali morreu minha mãe. Ali nasci. Mas é ocioso dizer que não havia vivido antes, que a alma não tem existência prévia. Vós negais isto. Não discutamos o assunto. Convencido eu mesmo, não procuro convencer os demais. Sinto, porém, uma lembrança de formas aéreas, de olhos espirituais e expressivos, de sons musicais, embora tristes; uma lembrança que não consigo anular; uma reminiscência semelhante a uma sombra, vaga, variável, indefinida, inconstante; e como uma sombra, também, na impossibilidade de livrar-me dela, enquanto a luz de minha razão existir.

 Foi naquele quarto que nasci. Emergindo assim da longa noite daquilo que parecia, mas não era, o nada, para logo cair nas verdadeiras regiões da terra das fadas, num palácio fantástico, nos estranhos domínios do pensamento monástico e da erudição. Não é de admirar que tenha lançado em torno de mim um olhar ardente e espantado, que tenha consumido minha infância nos livros e dissipado minha juventude em devaneios; mas é estranho que ao perpassar dos anos e quando o apogeu da maturidade me encontrou ainda na mansão de meus pais, uma maravilhosa inércia tombado sobre as fontes da minha vida maravilhosa, a total inversão que se operou na natureza de meus pensamentos mais comuns. As realidades do mundo me afetavam como visões, e somente como visões, enquanto que as loucas idéias da terra dos sonhos tornavam-se, por sua vez, não o estofo de minha existência cotidiana, na realidade, a minha absoluta e única existência.

Berenice e eu éramos primos e crescemos juntos, no solar paterno. Mas crescemos diferentemente: eu, de má saúde e mergulhado na minha melancolia; ela, ágil, graciosa e exuberante de energia. Para ela, os passeios pelas encostas da colina. Para mim, estudos do claustro. Eu, encerrado dentro do meu próprio coração e dedicado, de corpo e alma, à mais intensa e penosa meditação . Ela, divagando descuidosa pela vida, sem pensar em sombras no seu caminho, ou no vôo silente das horas de asas lutuosas. Berenice!

Quando lhe invoco o nome... Berenice!, das ruínas sombrias da memória repontam milhares de tumultuosas recordações. Ah, bem viva tenho agora a sua imagem diante de mim, como nos dias de sua jovialidade e alegria! Oh, deslumbrante, porém fantástica beleza! Oh, sílfide entre os arbustos de Arnheim! Oh, náiade à beira de suas fontes! E depois... depois tudo é mistério e uma estória que não deveria ser contada.

Uma doença...uma doença - uma fatal doença - soprou como um símum sobre seu corpo. E precisamente quando a contemplava, o espírito da metamorfose arrojou-se sobre ela, invadindo-lhe a mente, os hábitos e o caráter e, da maneira mais sutil e terrível, perturbando-lhe a própria personalidade. Ai! O destruidor veio e se foi, e a vítima…onde está ela? Não a conhecia... ou não mais a conhecia como Berenice!

Entre a numerosa série de males acarretados por aquela fatal e primeira doença, que realizou tão horrível revolução no ser moral e físico de minha prima, pode-se mencionar, como o mais aflitivo e o mais obstinado, uma espécie de epilepsia, que não poucas vezes, terminava em catalepsia, muito semelhante à morte efetiva e da qual despertava ela, quase sempre, duma maneira assustadoramente subitânea.

Entrementes, minha própria doença aumentava, pois fora dito que para ela não havia remédio, e assumiu afinal um caráter de monomania, de forma nova e extraordinária, que, hora em hora, de minuto em minuto, crescia em vigor e por fim veio a adquirir sobre mim a mais incompreensível ascendência. Esta monomania, se assim posso chamá-la, consistia numa irritabilidade mórbida daquelas faculdades do espírito que a ciência metafísica denomina “faculdades da atenção".

É mais que provável não me entenderem. Mas temo, deveras, que me seja totalmente impossível transmitir à mente do comum dos leitores uma idéia adequada daquela nervosa intensidade da atenção com que, no meu caso, as faculdades meditativas (para evitar a linguagem técnica) se aplicava e absorvia na contemplação dos mais vulgares objetos do mundo.

Meditar infatigavelmente longas horas, com a atenção cravada em alguma frase frívola, à margem de um livro ou no seu aspecto tipográfico, ficar absorto, durante a melhor parte dum dia de verão em contemplação duma sombra extravagante, projetada obliquamente sobre a tapeçaria, ou sobre o soalho; perder uma noite observar a chama inquieta duma lâmpada, ou as brasas de um fogão; sonhar dias inteiros com o perfume duma flor; repetir monotonamente, alguma palavra comum, até que o som, a repetição freqüente, cesse de representar ao espírito a menor idéia; perder toda a sensação de movimento ou de existência física, em virtude de uma absoluta quietação do corpo, prolongada e obstinadamente mantida, tais eram as mais comuns e menos perniciosas aberrações, provocadas pelo estado de minhas faculdades mentais não, de fato, absolutamente sem exemplo, mas certamente desafiando qualquer espécie de análise ou explicação.

Sejamos, porém, mais explícitos. A excessiva, ávida e mórbida atenção assim excitada por objetos de seu natural triviais, não deve ser confundida, a propósito, com aquela propensão à meditação, comum a toda a humanidade e mais especialmente do agrado das pessoas de imaginação ardente. Nem era tampouco, como se poderia a princípio supor, um estado extremo, ou uma exageração de tal propensão, mas primária e essencialmente distinta e diferente dela . Naquele caso, o sonhador, ou entusiasta, estando interessado por um objeto, geralmente não trivial, perde, sem o perceber, de vista este objeto, através duma imensidade de deduções e sugestões deles provindas, até que, chegando ao fim daquele sonho acordado, muitas vezes repletos de voluptuosidade, descobre estar o incitamentum causa primária de suas meditações, inteiramente esvanecido e esquecido. No meu caso, o ponto de partida era invariavelmente frívolo, embora assumisse, por intermédio de minha visão doentia, uma importância irreal e refratária. Poucas ou nenhumas reflexões eram feitas e estas poucas voltavam, obstinadamente , ao objeto primitivo como a um centro. As meditações nunca eram agradáveis, e ao fim do devaneio, a causa primeira, longe de estar fora de vista atingira aquele interesse sobrenaturalmente exagerado que era a característica principal da doença. Em uma palavra: as faculdades da mente mais particularmente exercitadas em mim eram, como já disse antes, as da atenção, ao passo que no sonhador-acordado são as especulativas.

Naquela época, os meus livros, se não contribuíam eficazmente para irritar a moléstia, participavam largamente, como é fácil perceber-se, pela sua natureza imaginativa e inconseqüente, das qualidades características da própria doença. Bem me lembro, entre outros, do tratado do nobre italiano, Coelius Secundus Curio de amplitudine beati regni dei; da grande obra de Santo Agostinho, A Cidade de Deus; do De Carne Christí, de Tertuliano, no qual a paradoxal sentença: Mortuus' est Dei filius; credible est quia ineptum est; et sepultus resurrexít; certum est quia impossibíle est, absorveu meu tempo todo, durante semanas de laboriosa e infrutífera investigação.

Dessa forma, minha razão, perturbada, no seu equilíbrio por coisas simplesmente triviais, assemelhava-se àquele penhasco marítimo de que fala Ptolomeu Hefestião, o qual resistia inabalável a questão da violência humana e ao furioso ataque das águas e ventos, mas tremia ao simples toque da flor chamada asfódelo. E embora a um pensador desatento possa parecer fora de dúvida que a alteração produzida pela lastimável moléstia no estado mortal de Berenice fornecesse motivos vários para o exercício daquela intensa e anormal meditação, cuja natureza tive dificuldade em explicar, tal não se deu absolutamente.

Nos intervalos lúcidos de minha enfermidade, a desgraça que a feria me dava realmente pena e me afetava fundamente o coração aquela ruína total de sua vida alegre e doce. Por isso não deixava de refletir muitas vezes, com amargura, nas causas prodigiosas que tinham tão subitamente produzido modificação tão estranha. Mas essas reflexões não participavam da idiossincrasia de minha doença, tais como teriam ocorrido em idênticas circunstâncias, à massa ordinária dos homens. Fiel a seu próprio caráter, meu desarranjo mental preocupava-se com as menos importantes porém mais chocantes mudanças operadas na constituição física de Berenice, na estranha e mais espantosa alteração de sua personalidade.

Posso afirmar que nunca amara minha prima, durante os dias mais brilhantes de sua incomparável beleza. Na estranha anomalia de minha existência, os sentimentos nunca me provinham do coração, e minhas paixões eram sempre do espírito. Através do crepúsculo matutino, entre as sombras estriadas da floresta, ao meio-dia no silêncio de minha biblioteca, à noite, esvoaçara ela diante de meus olhos e eu a contemplara, não como a viva e respirante Berenice, mas como a Berenice de um sonho; não como um ser da terra, um ser carnal, mas como a abstração de tal ser; não como uma coisa para admirar, mas para ser analisada; não como objeto para amar, mas como o tema da mais absoluta, embora inconstante, especulação. E agora.. . agora eu estremecia na sua presença e empalidecia ao vê-la aproximar-se; contudo, lamentando amargamente sua deplorável decadência, lembrei-me de que ela me havia amado muito tempo, e, num momento fatal, falei-lhe em casamento.

Aproximava-se, enfim, o período de nossas núpcias quando, numa tarde de inverno de um daqueles dias intempestivamente cálidos, sossegados e nevoentos, que são a alma do belo Alcíone, me sentei no mais recôndito gabinete da biblioteca. Julgava estar sozinho, mas erguendo a vista divisei Berenice, em pé, à minha frente.Foi a minha própria imaginação excitada, ou a nevoenta influência da atmosfera, ou o crepúsculo impreciso do aposento, ou as cinérias roupagens que lhe caíam em torno do corpo, que lhe deu aquele contorno indeciso e trêmulo? Não sei dizê-lo. Ela não disse uma palavra e eu por forma alguma podia emitir uma só sílaba.

Um gélido calafrio correu-me pelo corpo, uma sensação de intolerável ansiedade me oprimia, uma curiosidade devoradora invadiu-me a alma , e recostando-me na cadeira, permaneci por algum tempo imóvel e sem respirar, com os olhos fixos no seu vulto. Ai! sua magreza era excessiva e nenhum vestígio da criatura de outrora se vislumbrava numa linha sequer de suas formas. O meu olhar ardente pousou-se afinal em seu rosto.A fronte era alta e muito pálida, e de uma placidez singular. O cabelo, outrora negro, de azeviche, caía-lhe parcialmente sobre a testa e sombreava as fontes encovadas com numerosos anéis, agora de um amarelo vivo, em chocante discordância, pelo seu caráter fantástico , com a melancolia que lhe dominava o rosto. Os olhos, sem vida e sem brilho, pareciam estar desprovidos de pupilas.

Desviei involuntariamente a vista daquele olhar vítreo para olhar-lhe os lábios delgados e contraídos. Entreabriram-se e, num sorriso bem significativo, os dentes da Berenice transformada se foram lentamente mostrando. Prouvera a Deus que eu nunca os tivesse visto, tendo-os visto, tivesse morrido!

O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia saído do aposento. Mas do aposento desordenado do meu cérebro não havia saído, ai de mim!, e não queria sair o espectro branco de seus dentes lívidos. Nem uma mancha se via em sua superfície, nem uma pinta no esmalte, nem uma falha nas suas pontas, que aquele breve tempo de seu sorriso não houvesse gravado na minha memória. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. 


Os dentes!. . . Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda parte, visíveis, palpáveis. diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pálidos lábios contraídos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrível crescimento. Então desencadeou-se a plena fúria minha monomania e em vão lutei contra sua estranha e irresistível influência. Nos múltiplos objetos do mundo exterior, só pensava naqueles dentes. Queria-os com frenético desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplação. 

Eles, somente eles estavam presentes aos olhos de meu espírito, e eles, na sua única individualidade, se tornaram a essência de minha vida mental. Via-os sob todos os aspectos. Revolvi-os em todas as direções. Observava-lhes as características. Detinha-me em todas as suas peculiaridades. Meditava em sua conformação refletia na alteração de sua natureza. Estremecia ao atribuir-lhe em imaginação, faculdades de sentimento e de sensação, e, do mesmo quando desprovidos dos lábios, capacidade da expressão moral. 

Dizia-se com razão, de Mademoisselle Sallé que: tous ses pas étaient de sentiments, e de Berenice que: tous ser dentr étaien des idées! (todos os seus passos eram sentimentos...todos o seus dentes idéias N.T.)

Ah, esse foi o pensamento absurdo que me destruiu , des idées! Ah, essa era a razão pela qual eu os cobiçava tão loucamente . Sentia que somente a posse deles me poderia restituir a paz para sempre, fazendo-me voltar a razão.E assim cerrou-se a noite em torno de mim. Vieram as trevas demoraram-se, foram embora. E o dia raiou mais uma vez e os nevoeiros de uma segunda noite de novo se adensaram em torno de mim. E ainda sentado estava, imóvel, naquele quarto solitário ainda mergulhado em minha meditação, ainda com o dentes mantendo sua terrível ascendência sobre mim, a flutuar com a mais viva e hedionda nitidez, entre as luzes mutáveis e as sombras do aposento. Afinal, explodiu em meio de meus sonhos um grito de horror e de consternação, ao qual se seguiu, depois de uma pausa, o som de vozes aflitas, entremeadas de surdos lamentos de tristeza e pesar. 

Levantei-me e, escancarando uma das portas da biblioteca, vi, de pé, na antecâmara, uma criada, toda em lágrimas que me disse que Berenice havia. . . morrido! Sofrera um ataque epiléptico pela manhã e agora, ao cair da noite, a cova estava pronta para receber seu morador e todos os preparativos do enterro terminados. 

Com o coração cheio de angústia, oprimido pelo temor, dirigi com repugnância, para o quarto de dormir da defunta. Era quarto vasto, muito escuro, e eu me chocava, a cada passo, com os preparativos do sepultamento. Os cortinados do leito, disse-me um criado, estavam fechados sobre o ataúde e naquele ataúde, acrescentou ele, em voz baixa, jazia tudo quanto restava de Berenice.

Quem, pois, me perguntou se eu não queria ver o corpo? Não vi moverem-se os lábios de ninguém; entretanto, a pergunta realmente feita e o eco das últimas sílabas ainda se arrastava pelo quarto. Era impossível resistir e, com uma sensação opressiva, dirigi-me a passos tardos para o leito. Ergui de manso as sombrias dobras das cortinas; mas, deixando-as cair de novo, desceram sobre meus ombros e, separando-me do mundo dos vivos, me encerraram na mais estreita comunhão com a defunta. 

Todo o ar do quarto respirava morte; mas o cheiro característico do ataúde me fazia mal e imaginava que um odor deletério exalava já do cadáver. Teria dado mundos para escapar, para livrar-me da perniciosa influência mortuária, para respirar, uma vez ainda, o ar puro dos céus eternos. Mas, faleciam-me as forças para mover-me os joelhos tremiam e me sentia como que enraizado no solo contemplando fixamente o rígido cadáver, estendido ao comprido no caixão aberto. 

Deus do céu! Seria possível? Ter-se-ia meu cérebro transviado? Ou o dedo da defunta se mexera no sudário que a envolvia? Tremendo de inexprimível terror, ergui lentamente os olhos para ver o cadáver. Haviam-lhe amarrado o queixo com um lenço, o qual não sei como, se desatara. Os lábios lívidos se torciam numa espécie de sorriso, e por entre sua moldura melancólica os dentes de Berenice, brancos, luzentes, terríveis me fixavam ainda, com uma realidade demasiado vivida. Afastei-me convulsivamente, do leito, sem pronunciar uma palavra, como um louco, corri para fora daquele quarto de mistério, de horror e de morte. 

Achei-me de novo sentado na biblioteca, e de novo ali estava só.Parecia que havia pouco despertara de um sonho confuso e agitado que era então meia-noite e bem ciente estava de que, desde o pôr do sol, Berenice tinha sido enterrada. Mas, durante esse tétrico intervalo, eu não tinha qualquer percepção positiva, ou definida. Sua recordação, porém, estava repleta de horror, horror mais horrível porque vindo do impreciso, terror mais terrível porque saído da ambigüidade. Era uma página espantosa do registro de minha existência , toda escrita com sombra e com medonhas e ininteligíveis recordações.  

Tentava decifrá-la, mas em vão; e de vez em quando, como o espírito de um som evadido, parecia-me retinir nos ouvidos o grito agudo e lancinante de uma voz de mulher. Eu fizera alguma coisa; que era, porém? Fazia a mim mesmo tal pergunta em voz alta, e os ecos do aposento me respondiam: Que era? a mesa, a meu lado, ardia uma lâmpada e perto dela estava uma caixinha. Não era de forma digna de nota e eu freqüentemente a vira antes, pois pertencia ao médico da família; mas, como viera ter ali, sobre minha mesa, e por que estremecia eu ao comtemplá-la? Não valia a pena importar-me com tais coisas e meus olhos por fim caíram sobre as páginas abertas de um livro, na sentença nelas sublinhada.

Eram as palavras singulares, simples, do poeta Ebn Zaiat: Dícebant míhi sodales, si sepulchrum amicae visitarem, curas meus aliquantulum fore levatas. Porque então, ao lê-las, os cabelos de minha cabeça se eriçaram até a ponta, e o sangue de meu corpo se congelou nas veias? 

Uma leve pancada soou na porta da biblioteca. E, pálido como o brilhante de um sepulcro, um criado entrou, na ponta dos pés. Sua fisionomia estava transtornada de pavor e ele me falou numa voz trêmula, rouca e muito baixa. Que disse? Ouvi frases truncadas. Falou-me de um grito selvagem que perturbara o silêncio da noite …todos em casa se reuniram. . . saíram procurando em direção ao som. E depois sua voz se tornou penetrantemente distinta, ao falar-me de um túmulo violado. . . de um corpo desfigurado, desamortalhado, mas que ainda respirava, ainda ainda vivia!

Apontou para minhas roupas; estavam sujas de coágulos de sangue. Eu nada falava e ele pegou-me levemente na mão; gravavam-se nela os sinais de unhas humanas. Chamou-me a atenção para certo objeto encostado à parede: era uma pá. 

Com um grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que nela se achava. Mas não pude arrombá-la; e, no meu tremor, ela deslizou de minhas mãos e caiu com força, quebrandose em pedaços. E dela, com um som tintinante, rolaram vários instrumentos de cirurgia dentária, de mistura com trinta e duas coisas pequenas, como que de marfim, que se espalharam por todo o assoalho. 

Creepypasta: Alice No País Das Maravilhas

A história de Alice é, na realidade, triste. Lembrem-se que os grandes contos de fadas são de outra época, a realidade era diferente e os valores extremamente conservadores. Então, ter uma filha esquizofrênica era considerado uma aberração, um crime. Os pais de Alice decidiram deixa-la em um sanatório, e ela permanecia, na maior parte do tempo, dopada. Quando não estava sob efeito de remédios, era violentada pelos funcionários. A menina tinha apenas 11 anos.

Cada um dos personagens e objetos da história, tem a ver com um desejo ou experiência de Alice.

O buraco pelo qual ela entra no País das Maravilhas, é, na verdade, uma janela de seu quarto, onde ficou presa durante toda a vida, pela qual ela desejava sair e conhecer o mundo à sua volta.

O coelho branco, para ela, representava o tempo. Aquele tempo que ela desejava que passasse logo, para que um dia ela pudesse sair daquele lugar. O tempo que ela via passar tão rápido, porém tão lento...

O Chapeleiro Maluco, era outro interno, seu melhor amigo. Alguém que deixava sua vida no hospital menos amargurada, com quem criava várias teorias de como seria a vida lá fora. O rapaz, em realidade, sofria de Síndrome Bipolar, por isso a personalidade do Chapeleiro na história, o mostrava ora alegre, ora depressivo, ora calmo, ora irritado.

A Lebre, companheira do Chapeleiro, era a menina que dividia o quarto com ele. Ela sofria de depressão profunda, e todas as vezes que Alice teve contato com ela, encontrou-a num estado de terror e paranoia.

O gato de Cheshire: um dos enfermeiros, em quem Alice confiou, mas acabou por enganá-la e violenta-la. O sorriso do gato, aquele que é tão marcado, era na verdade o sorriso obscuro que seu agressor abria, cada vez que lhe abusava, e a deixava jogada em um canto de sua acomodação, derrotada, triste e ofuscada.

A Rainha de Copas: a diretora do sanatório. Uma mulher má e desprezível, que não sentia sequer um pingo de compaixão para com os enfermos que estavam sob seus cuidados. Era a favor da terapia de choque e da lobotomia, e por diversas vezes ordenava que os funcionários espancassem, sedassem e prendessem em jaulas os enfermos que apresentavam comportamento que não lhe agradavam.

A Rainha Branca: sua mãe, uma mulher nobre e terna, que sofreu na pele o preconceito de ter uma filha doente, tendo que abandonar a menina em um sanatório, e nunca mais voltar a vê-la. As vagas lembranças que Alice possuía, era de momentos com sua mãe, e o motivo dela pensar que o mundo fora dos muros do hospital era um lugar melhor, era saber que a mãe estava lá, em algum lugar, para lhe cuidar.

Os Naipes: enfermeiros do hospital, apenas seguindo ordens o dia inteiro.

A Lagarta Azul: sua terapeuta, aquela que lhe dava as respostas, que lhe explicava o que acontecia e com quem ela conversava.

Tweedledum e Tweedledee: gêmeos siameses órfãos, que também estavam no hospital. Embora não possuíssem nenhum problema mental que justificasse sua internação, a aparência que tinham era assustadora, por isso foram reclusos.

O Rei de Copas: o médico psiquiatra do hospital. Alguém com complexo de inferioridade, que era incapaz de se opor às ordens da diretora.

Os frascos “Coma-me” e “Beba-me”: as drogas que lhe davam. Por serem extremamente fortes, por várias vezes Alice tinha sensações diferentes e alucinações, bem como se tivesse encolhido ou aumentado de tamanho.

Tudo isso foi criado pela menina como se fosse um mundo paralelo. Uma realidade menos dolorosa daquela em que vivia. Ela já não podia suportar aquele local e tudo o que acontecia com ela ali dentro, então resolveu usar de sua imaginação infantil para amenizar a dor e o sofrimento. A irmã mais velha de Alice, é na verdade uma enfermeira do hospital, a quem a pequena era muito apegada. A enfermeira tinha um diário e nele anotava todas as histórias que Alice criava em sua mente. Todos os dias a enfermeira ia até o quarto da menina e ouvia seus desabafos e as aventuras que criava em sua mente. Sem deixar de anotar uma palavra sequer.

Infelizmente, Alice executa uma tentativa de fuga. Ela não obtém sucesso, e acaba detida pelos funcionários. A diretora furiosa, manda que espanquem a garota e apliquem a terapia de eletrochoque, para que nunca mais volte a se repetir. Após o castigo, Alice torna-se agressiva e violenta, ao ponto da diretora decidir que a única saída para ela, seria a lobotomia.

Alice viveu por muito tempo em um estado de “coma”. Ela nunca mais viveu, sorriu, tampouco falou. Devido a isso, teve seu corpo devastadoramente abusado, tanto, que acabou por ter hemorragia interna devido à violência empregada em um ato de estupro, e veio a falecer.

A enfermeira que escrevia suas histórias em um diário acabou por se afastar do sanatório, e Alice foi imortalizada como a menina sonhadora que viveu aventuras incríveis no País das Maravilhas.

Sonic.exe


Essa é uma creepypasta antiga, mas provavelmente há pessoas que ainda não a conhecem.

Você provavelmente já jogou algum game do Sonic pelo menos uma vez na vida, não é verdade? Mas tem um jogo do ouriço que você nunca jogou, e provavelmente jamais vai querer jogar: conheça a história de SONIC.EXE, o game demoníaco do mascote da Sega!
Existe uma coisa que o ser humano sempre irá temer: o desconhecido. E existe uma outra coisa que faz o ser humano entrar no desconhecido, alheio até mesmo aos perigos que ele pode representar: a curiosidade.


A curiosidade é o que nos move adiante e nos empurra para novas descobertas; algumas boas, outras nem tanto. E foi a curiosidade que levou um pobre fã do Sonic aos piores momentos de sua vida na lenda sinistra que você vai conhecer agora.

Tom estava em sua casa jogando tranquilamente o (famigerado) game Sonic Unleashed quando,ao olhar pela janela, reparou que o carteiro havia acabado de deixar as correspondências em sua caixa de correio.

Ele então pausou o game e foi apanhar as correspondências. Ao abrir sua caixa de correio, viu que o carteiro havia deixado apenas uma caixinha de CD e uma carta. Pela letra, Tom reconheceu que a carta era de seu amigo Kyle, de quem Tom não tinha notícias há duas semanas.

Em letras estranhas, como se estivesse com dificuldades para escrever, Kyle dizia:


"Tom:
Eu não posso mais ficar com isso, eu tinha que me livrar disso de alguma forma antes que fosse tarde demais, e eu esperava que você pudesse fazer isso por mim. Eu não consigo fazer isso, ele está atrás de mim, e se você não destruir este CD, ele irá atrás de você também, ele é rápido demais para mim…
Por favor Tom, destrua este disco antes que ele venha atrás de você também… é tarde demais para mim.
Destrua o disco, e você o destruirá, mas faça isso rápido ou ele irá pegar você. E nem mesmo jogue este game, é isso o que ele quer. Apenas destrua-o.
Por favor…
Kyle.”
Tom estranhou a carta de seu melhor amigo, sumido há duas semanas, mas levianamente ignorou os avisos do game. Devia ser algum tipo de pegadinha, afinal. O que um simples game poderia fazer de mal a ele? Era apenas um game e nada mais!Tom pegou o CD – um simples disco sem nada de especial – onde lia-se nome SONIC.EXE escrito com caneta permanente. Ao ver o nome Sonic, Tom ficou muito empolgado, pois era fã do ouriço,então tratou de colocar o CD em seu computador para jogá-lo.
Após a instalação, a tela de abertura do game apareceu. Era o primeiro game do Sonic, um clássico que marcou gerações. Embora não fosse um jogo novo, Tom ficou imensamente feliz por poder jogá-lo novamente.
Mas uma coisa estava terrivelmente errada: ao apertar start, a tela de abertura mudou por apenas uma fração de segundo antes da tela ficar preta. A imagem que apareceu neste frame era a tela de abertura do game bizarramente distorcida, com o céu escuro, a água vermelha, e onde deveria estar escrito ©SEGA 1991 estava escrito ©SEGA 666.
Para piorar, o próprio Sonic estava mudado: seus olhos estavam totalmente pretos e sangravam, exibindo um par de aterrorizantes pupilas vermelhas e brilhantes. Para piorar, estes olhos macabros pareciam olhar diretamente para Tom!
Tom achou curioso, mas foi tudo tão rápido que ele pensou que aquilo era apenas um 
glitch do game. Após uma tela preta, uma nova tela apareceu com três save files… de Sonic The Hedgehog 3, algo impossível de acontecer!
A tela que mostrava os 3 arquivos de save por si só era muito estranha: o fundo era composto por algo parecido com nuvens vermelho-escuras, como as da fase Bad Stardust Speedway do Sonic CD. E a música que tocava era estranha, bizarra, muito parecida com a que tocava no game Earthbound. 
Tom reparou nos três arquivos de save e mais uma vez se espantou: o primeiro arquivo era um save de Tails. O segundo era um save de Knuckles, personagens que sequer existiam no primeiro game do Sonic.
Ainda mais bizarro era o terceiro arquivo: um save file nomeado como Robotnik, ninguém menos que o arqui-inimigo do Sonic! Vendo todas essas coisas estranhas, Tom concluiu que aqui não eram apenas glitches ou bugs: aquilo deveria ser uma versão hackeada de algum game do Sonic. 
Esta era a explicação mais lógica, pois como seria possível o primeiro game do Sonic possuir save files do terceiro game e ainda contar com o próprio Robotnik como personagem jogável? E além disso… onde estava o Sonic?

Apesar de todas estas bizarrices, Tom não se sentiu amedrontado e resolveu encarar o desafio, escolhendo Tails para começar o game. A tela ficou preta por alguns segundos e uma macabra risada pixelada soou, muito semelhante à risada de Kefka, vilão de Final Fantasy VI.
Então surgiu uma mensagem na tela. Em uma tipografia estranha lia-se apenas “HILL, ACT 1″. Após isso, o game enfim começou, o cenário da clássica Green Hill Zone de Sonic 1 apareceu, e Tails começou a correr ao controle de Tom. 
No entanto, a fase não possuía nenhum inimigo e progredia sempre em linha reta, ao som de uma estranha música que parecia tocada de trás para frente. Após 5 minutos em linha reta, Tails encontrou algo estranho: parecia um dos animais que são salvos ao fim de cada level, mas ele estava morto.
A partir desse momento, a música invertida começou a diminuir de volume e ficar cada vez mais lenta, e uma sucessão de animais mortos começou a aparecer pelo caminho, todos dentro de sinistras poças de sangue e parecendo mutilados. Para deixar tudo ainda mais estranho, a cada animal que Tails passava, sua expressão parecia ficar diferente, como se o próprio personagem estivesse ficando triste, se é que isso era possível.


No vídeo abaixo, você pode ouvir o possível tema original deste bizarro SONIC.EXE:


Ao fim da fase, os animais e a música sumiram. Tails continuou correndo até que de repente parou, e diante dele estava Sonic, de costas e com os olhos fechados. Tom estão começou a assistir o que parecia ser uma cutscene: Tails parecia estar feliz por rever Sonic, e foi se aproximando lentamente dele.
Conforme Tails chegava perto, um estranho som de estática surgiu e começou a ficar cada vez mais alto. Quando Tails chegou perto de Sonic – que parecia estar ignorando-o – e esticou seu braço para tocar nele, o ouriço abriu os olhos… os mesmos olhos negros com pupilas vermelhas que apareceram no início do jogo.
Depois disso, tudo ficou preto por alguns segundos, e o primeiro contato aconteceu…
No meio da tela preta, uma mensagem cabulosa apareceu para Tom:“Olá. Você quer brincar comigo?”. Como dito, a curiosidade nos move adiante, ela nos dá o desejo de descobrir coisas que não conhecemos, e foi a curiosidade de Tom que prevaleceu sobre seu medo neste momento. Por mais que ele desejasse parar de jogar naquele exato momento, sua curiosidade o obrigou a seguir adiante. “HIDE AND SEEK”, era a próxima fase, título de nenhuma fase conhecida dos jogos do Sonic.
A fase começou, e tudo parecia em chamas. Não havia mais nada no cenário a não ser o chão e o fundo, que mostrava uma das florestas do jogo sendo consumida por um fogo insaciável. Tails estava lá, mas nesta fase ele olhava diretamente para o jogador, fazendo gestos como se estivesse em desespero, como se implorasse para que Tom o tirasse daquele lugar!

Assustado, Tom começou a correr com Tails, como se tentasse sair daquele lugar, e uma música ainda mais sinistra começou a tocar. Durante a corrida, a macabra risada de Kefka ressoou, e imagens do Sonic de olhos negros e vermelhos apareciam em todos os cantos da tela.

Então o próprio Sonic apareceu, seguindo Tails como se estivesse planando sobre o chão. Uma nova e dramática cutscene se iniciou: Tails tropeçou, caiu e começou a chorar. Sonic apareceu diante dele, com seus olhos negros por onde agora escorria sangue, e seu rosto estava diferente, apresentando um sorriso estranho, psicótico, como se ele estivesse apreciando o sofrimento de Tails, que encarava-o horrorizado.
Numa fração de segundo, Sonic avançou para cima de Tails e imediatamente um som muito alto, que parecia um grito angustiado e distorcido ecoou, e a tela ficou preta mais uma vez.
“Você é muito lento, quer tentar novamente?”, desafiou o game macabro, ao som da gargalhada sinistra. Tom estava em choque com o que tinha acabado de ver: Tails estava morto, assassinado pelas mãos do próprio Sonic. 
A tela de seleção de personagens reapareceu, mas o save file de Tails estava diferente. O personagem não estava mais lá, mas no quadro acima, havia uma imagem de Tails, com olhos negros e sangrentos, pelos escuros e uma expressão mórbida no rosto. Tom imediatamente escolheu Knuckles para continuar o game, tentando fugir daquela tela com a imagem morta de Tails.

Novamente a risada maquiavélica foi ouvida em mais uma tela preta, e isso já estava causando arrepios em Tom, ele já não sabia mais em que acreditar: seria tudo isso algum glitch do jogo, uma versão hackeada ou uma brincadeira de muito mal gosto com os personagens de seu jogo favorito?
 Após alguns segundos, o nome da próxima fase apareceu: “YOU CAN’T RUN”. A fase começou, o plano de fundo era a mesma imagem das nuvens vermelhas da tela de seleção dos save files, e não havia nada além do chão metálico no cenário. A música que estava tocando era uma macabra melodia bem familiar: era o tema de Giygas, o mal puro e disforme de Earthbound .
Knuckles começou a correr ao comando de Tom, mas durante sua progressão, o jogo era interrompido vez ou outra por uma estranha estática vermelha. De repente, o chão por onde Knuckles corria ficou encharcado com sangue; poças vermelhas se espalhavam pelo chão e e esguichos de sangue brotavam por todos os lados.
Sonic então apareceu diante de Knuckles, logo após isso surgiu uma tela preta com a mensagem: “fOUNd You!” (te encontrei!). A estática vermelha reapareceu e Knuckles surgiu em pânico. Na sequência, um terrível som incompreensível ecoou. Sonic então voltou a aparecer, envolto numa estranha névoa escura.

Tom já estava ficando cansado daquilo, e tentou fazer Knuckles atacar Sonic. Porém, a cada investida, Sonic apenas desaparecia ao som daquela terrível e incessante risada e reaparecia , ameaçadoramente, atrás de Knuckles.
Uma nova cutscene para assombrar ainda mais Tom: Knuckles, assim como Tails, estava caído no cenário, balançando a cabeça como se estivesse esgotado até o fim de sua “alma” (?!). Sonic apareceu e o atacou; a tela preta reapareceu, mas desta vez não houve nenhuma risada.
Tom ouviu um som alto e distorcido por alguns segundos. “Tantas almas para brincar, tão pouco tempo… Você concorda?” perguntava o jogo. O que era aquilo afinal de contas? Como era possível um simples game fazer aquilo com o jogador? Será que o Sonic (ou o que quer que fosse) estava tentando se comunicar com o próprio Tom? Essas perguntas começaram a pipocar na cabeça de Tom, que estava ficando cada vez mais perturbado.

Com muito esforço, 
Tom conseguiu libertar sua mente do jogo e desligá-lo. Exausto, ele resolveu tirar um cochilo para tentar relaxar e esquecer todo o horror que aquele jogo estava se tornando… mas isso não aconteceu.
Enquanto dormia, Tom teve o pior pesadelo de sua vida: ele estava num local de pura escuridão, iluminado apenas por uma estranha luz vinda do alto. Ao seu redor, ele podia ouvir os gritos e vozes de Tails e Knuckles, que bradavam coisas como “Nos ajude…”, “Porque você nos entregou a ele?”, “Fuja daqui, antes que ele te pegue…”. 
Quando os choros e gritos pararam, Tom ouviu uma risada sinistra, não a mesma que constantemente ouvia no jogo, mas sim a risada própria do personagem Sonic, mas muito distorcida, macabra, como se fosse a voz algo que não existe… ou não deveria existir. E então ele ouviu a voz do ouriço:
“Você é muito divertido de se brincar garoto, assim como seu amigo Kyle, apesar dele não ter durado tanto… Não vai demorar muito até que você se una a ele e a todos os meus outros amigos…”.

E então Tom viu que, do meio da escuridão, Sonic caminhava em sua direção, com sua imagem indo e vindo de todas as direções. “Você não pode correr garoto. Você está no meu mundo agora. Assim como os outros…”. Sonic agarrou Tom, e ele pôde ver bem de perto aqueles terríveis olhos negros com pupilas vermelhas que jorravam sangue.
Em um sobressalto, Tom acordou deste terrível pesadelo. Suado,  o garoto estava assustado até o fundo de seu coração e só o que desejava agora era jamais ter começado aquele jogo estúpido. Porém, contrariando a razão, ele voltou ao seu computador e iniciou o Sonic.exe. Agora era a vez de Robotnik encontrar seu destino.
Knuckles, assim como Tails, estava preso na tela acima de onde seu personagem deveria estar. Pelos escuros, olhos negros, uma expressão morta em seu rosto ensanguentado. A fase de Robotnik começou, seu título era simplesmente: “…”. 
O cenário desta fase não pertencia a nenhum game do Sonic. Ela progredia linearmente com sprites de tochas ao longo do caminho, com uma cortina vermelha no topo do cenário que descia aos poucos, quase imperceptivelmente, e uma lenta música de piano, que Tom logo percebeu se tratar da música da fase HILL, ACT 1 (onde Tails encontrara sua morte),  mas dessa vez não invertida.
Após uma longa caminhada, um lance de escadas surgiu. Enquanto Robotnik corria e descia, o cenário ia ficando cada vez mais escuro, assumindo uma mórbida tonalidade vermelha. As tochas começaram a ficar azuis, até enfim ficarem pretas, no último andar, na mais profunda escuridão.
A risada irrompeu, já indicando que algo sinistro viria a seguir. A música foi parando lentamente e, assim como aconteceu com Tails e Knuckles, a figura de Sonic apareceu diante do vilão Robotnik, e junto dele, a estática vermelha tomou conta da tela por um bom tempo.
Quando a estática terminou, Tom viu uma imagem que ficaria eternamente presa em sua mente: era uma imagem do Sonic envolto em escuridão. Porém, não eram sprites, era algo muito realista, como se o personagem fosse real e estivesse do outro lado da tela.
O ouriço exibia um sorriso horripilante, como se estivesse possuído por alguma entidade maligna. Sua cara distorcida exibia dentes pontiagudos, manchas de sangue e restos do que parecia ser carne viva. Seus olhos eram totalmente escuros, como poços sem fundo, e no centro de cada um deles, aspupilas vermelhas brilhavam como algo que não é deste mundo. 
A macabra imagem olhava diretamente para Tom, como se pudesse vê-lo ali, como se olhasse diretamente para sua alma, e continuou assim por vários segundos. A imagem piscou 3 vezes com a maldita estática vermelha, e após a terceira, a risada de Kefka foi ouvida novamente, mas profunda, mais distorcida… mais demoníaca.
Então uma mensagem apareceu na tela, em letras vermelhas: “I AM GOD.” (EU SOU DEUS.)

Tom começou  gritar quando a imagem do Sonic se aproximou mais da tela, abrindo a boca mais e mais enquanto emitia um grito extremamente agudo. Lá no fundo da bocarra do ouriço, havia um abismo em espiral que parecia levar para as profundezas de onde quer que este Sonic endemoniado tenha surgido. Mais uma vez, a estática tomou conta da tela, acompanhada de um som tão alto e agudo que os ouvidos de Tom vibraram de dor, obrigando-o a tapá-los com as mãos.
A tela ficou preta novamente, e em seu monitor, a seguinte mensagem apareceu: “Ready for Round 2, Tom?” (Pronto para o Round 2, Tom?). A partir daí, a risada tomou conta, Sonic ria enquanto Tom estava imóvel em frente ao seu computador, ria de forma tão clara como se estivesse dentro do quarto.
Sonic, ou o que quer que fosse aquilo atrás da tela, era uma criatura cruel, sádica, maléfica e de extremo poder, que se divertia ao causar o sofrimento dos outros. Tom começou a pensar em Tails, Knuckles, Robotnik e até em seu amigo Kyle. Teria aquela criatura medonha realmente matado seu amigo e seus personagens tão queridos?
O round 2 começou, e a tela de seleção de personagens apareceu novamente. Lá estavam Tails e Knuckles, e agora junto a eles estava Robotnik, com sua pele cinza, bigode escuro e caído e óculos quebrados, por onde sangue escorria. Todos estavam mortos. Depois disso o computador de Tom desligou-se por conta própria e não ligou mais…
Sonic estava conseguindo o que queria, ele estava trazendo Tom para dentro de seu mundo, afogando-o em desespero, encurralando-o em um mundo de terror e escuridão.
Tom conseguiu com muito custo religar o computador, mas não conseguia de forma alguma tirar o CD do game do drive. Então, de repente, seu sangue gelou, pois ele ouviu uma voz aterrorizante às suas costas:
“Tente manter isso interessante para mim, Tom”.
Tom se virou, e gritou de desespero com o que ele viu! Sentado em sua cama, olhando diretamente para ele… havia um boneco de pelúcia de Sonic, sangrando pelos olhos!
Não se sabe qual é o fim dessa história, ou o que aconteceu com Tom, ou mesmo com o temível CD contendo o jogo Sonic.exe . A origem do disco é igualmente misteriosa.
Fica a pergunta: quem, ou melhor, o que era o Sonic que atormentou a vida de Kyle e Tom? Teria o tenebroso Giygas invadido outro jogo para continuar perpetrando o terror? Tudo isso são mistério que permanecem sem solução. 
Alguns fãs da lenda de Sonic.exe criaram um vídeo para demonstrar como deveria ser este game macabro. Se tiver coragem, assista-o a seguir:


Fonte da história: creepypasta wikia

O Melhor Amigo do Homem

No interior de Minas contam uma história de um sujeito que perdeu-se em uma mata. Ficou vagando por dias, sem água ou comida. Todo maltrapilho e à beira da morte viu de longe em uma clareira um cão que latia para ele. Por um momento pensou que fosse uma alucinação causada pelo seu estado debilitado. Chegando mais perto, pode ver que se tratava de um cão de verdade que se afastava a passos lentos cada vez que o sujeito se aproximava.

Pensou então com ele: "Se há um cachorro aqui, devo estar perto de alguma habitação. Alguém deve morar por perto. Vou segui-lo."

Andou na direção do animal, que se afastava como que mostrando um caminho para o homem. Após alguns horas o sujeito pode ver uma pequena casinha mal construída, feita de barro e palha, onde um casal sentado à porta, conversava sobre amenidades.

Feliz e desesperado, o homem correu na direção dos dois moradores, sentindo-se salvo.

Assustados, os dois receberam o homem tentando entender o que havia se passado. Depois de beber um pouco d'água e se recuperar, o sujeito contou a história, falando do cachorro que o havia guiado pela mata até o local onde estava agora.

Entreolhando-se, os dois moradores desconfiaram da história, dizendo que não havia nenhum cachorro pelas redondezas. Ele, então, se propôs a levar os dois céticos ao local onde havia visto o cachorro pela primeira vez.

Ao chegar lá, nada viram a não ser uma cruz sobre uma cova rasa, que o morador informou tratar-se do túmulo do filho, que havia sido assassinado por uma matilha de lobos. []